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Gosto se discute - by Kátia Vanessa Tarantini Silvestri

  • Foto do escritor: pharmaciaphilosofi
    pharmaciaphilosofi
  • 26 de nov. de 2020
  • 4 min de leitura

Atualizado: 25 de fev. de 2021

Gosto se discute e quando não se discute pode-se estar praticando a tirania do gosto. As questões sobre o que é ter gosto? Gosto ruim? Bom gosto? são deixadas muitas vezes ao acaso, julgadas como polêmicas. Podemos perguntar: qual o problema em pensar sobre o que é o gosto, como ele se constitui e porque existe um discurso circulando entre nós que gosto não se discute? É a estética a disciplina filosófica que se debruça sobre o tema e nos convida a sair do lugar comum em que as perguntas não são bem-vindas.

Uma breve história do belo e, portanto do gosto, nos conta que na Antiguidade os gregos definiam de belo aquilo que cumprisse com o padrão imposto pela natureza. Era belo o que obedecesse ao princípio da ordem; ordem essa que podia ser contemplada no cosmo (do grego antigo "κόσμος" "ordem", "organização", "beleza", "harmonia") Daí o termo cosmético e, para não perder a piada – aquilo que trará ordem ao caos... O caos era, portanto, o feio, pois a desordem.


Ao belo associava-se a ideia de bem e verdade em Platão. Essa associação afirma que o belo é o bem verdadeiro. No mundo sensível, diz Platão na obra Banquete, a beleza é variável e, por isso a critica. Já no mundo inteligível, a beleza não é variável: ela sempre é, não se torna, nem acaba, não brilha, nem desvanece. E a tríade existe em si; a nós cabe contemplar. Eis a passividade do homem face a verdadeira beleza que é o bem. A essa noção se dá o nome de belo objetivo – não depende do olho que vê, existe como propriedade da coisa. Aristóteles, mais voltado para o mundo humano, acrescenta as noções de proporção e simetria, eis a tal da justa medida aristotélica. Mas o belo continua sendo uma qualidade da coisa. Mais precisamente, diz Aristóteles que pela mimese, a representação da natureza, o homem aprende e simplifica.


Na Idade Média a concepção de belo grega é associada a ideia de Deus. Agostinho diz que o gosto pela proporção e ordenação é dado por iluminação divina. Tomás de Aquino adapta a noção de forma dizendo que as formas que em Aristóteles eram criação humana, dependem, de fato, de Deus. Em outras palavras, os atributos da ordem, simetria, proporção passam a ser atributos da própria beleza de Deus (que é o Bem e a Verdade).

É com os empiristas que a noção de que a beleza está nos olhos de quem vê surge. Locke e Hume criam o que se define como o belo subjetivo. O belo é então um sentimento de quem contempla o objeto. Se o sentimento for prazeroso dizemos que o objeto é belo; se o sentimento for de repulsa dizemos que o objeto não é belo, é feio, ruim.

Kant percebeu que deveria haver um meio termo entre o belo objetivo e o belo subjetivo e que também deveria haver uma distinção entre juízos de bondade, juízos estéticos e juízos de utilidade. Ao julgamento de que algo é belo Kant chama de julgamento de gosto. O julgamento de gosto defende que não pode haver uma regra (belo objetivo) que obrigue uma pessoa a dizer que algo é belo. Todavia, isso não significa que a preferência arbitrária (belo subjetivo) seja aceita. O que Kant nos diz é que ter gosto é ter a capacidade de julgamento sem preconceito. Por exemplo, apesar de uma pintura ser muito bem feita ela pode estar representando o tema feio. Exemplo uma pintura que represente o horror da guerra, ela trata de um tema feio, mas é bela. As artes, no exemplo a pintura de Ivan Serpa, desafia nosso intelecto. Convida-nos a vivenciar uma experiência estética, a estar aberto a uma alteridade, um outro que, em nosso exemplo, é a pintura, logo abaixo de Serpa.


Não obstante, cada experiência estética é uma aprendizagem. Nossa sensibilidade se torna mais latente, nossa capacidade de observação, escuta e dedicação é exigida. As sensações que as Artes nos causam realmente diferem. Uma mesma pessoa pode ter sensações diferentes ao observar uma mesma pintura. O que busco ressaltar é a importância de se permitir a experiência estética. Por isso a pergunta pelo gosto não deve ser vista como impossível, mas como pedagógica. Afinal de onde vêm nossa ideia de belo? De nos mesmos e nossas experiências estéticas que estão fundadas numa abertura e num julgamento sem preconceitos? Ou são ideias inculcadas em nossa mente de acordo com o que a mídia descompromissada está interessa em vender? De outra forma: o que gosto gosto por quê? Porque tive vários contatos com diferentes Artes, ouvi diferentes gêneros musicais, li diferentes gêneros literários, observei diferentes pinturas, esculturas, artesanatos, culinárias? Ou nos deixamos levar pelo que a ditadura do belo propaga e as condutas massificadas nos incita?


Como se não bastasse é importante discutir gosto para não cairmos numa tirania do mesmo. Quando confundimos ter gosto com preferência arbitrária de nossa subjetividade o que isso promove? Vejamos: quando acreditamos que as nossas preferências, totalmente arbitrárias, são sinônimo de ter gosto estamos olhando somente para nossos próprios umbigos. Estamos mais falando sobre nos mesmos do que sobre a Arte em questão. Nessa confusão, não damos chance nenhum às Artes (músicas, cinemas, pinturas, esculturas, teatro, literatura, artesanato, grafite, arquitetura, culinária entre várias outras). Com essa postura, belo é o que agrada e, portanto, se diz que é bom; já a recíproca se faz verdadeira: feio é o que não agrada e se diz que é ruim, imprestável. De onde podem nascer os preconceitos, a tirania, o racismo, a intolerância, o fascismo, o dogmatismo senão dessa visão de mundo sobre o gosto?


Antes e substancialmente, gosto pode e deve ser pensado e problematizado para sairmos do lugar dado do conformismo e hábito, pois muitas pessoas podem estar presas a uma compreensão limitada sobre gosto simplesmente porque ela mesmas e outras pessoas preferem não falar sobre. Tudo que é silenciado é, de alguma forma, um modo de opressão. Falemos, adquiramos gosto para não sermos egoístas e mesquinhos.


Dica de filme: O gosto dos outros

Pintura de Ivan Serpa. Representa um tema feio. Fonte: www.pinacoteca.org.br/

Diálogo com O grito de Munch.

 
 
 

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